Domingo, 19 de Abril de 2009
A Chama Imensa - 19 de Abril de 2008
Goooooooooolo da estrutura!
Isto do futebol depende muito da perspectiva. Há uns anos, uma equipa portuguesa (o Estoril) resolveu jogar com o Benfica a cerca de 300 quilómetros do seu estádio porque sabia que, noutro recinto, teria uma receita bem maior. Foi um escândalo. Uma vergonha, uma infâmia, uma vigarice nunca vista no futebol mundial. Poucos anos depois, uma equipa francesa (o Lille) resolveu jogar com o Benfica a cerca de 300 quilómetros do seu estádio porque sabia que, noutro recinto, teria uma receita bem maior. Foi um acto de gestão normal. Uma manifestação de inteligência, de sensatez, de administração racional das finanças do clube.
São diferenças de perspectiva que se registam a toda a hora. Há uma semana, o Porto foi empatar a Old Trafford. No final do jogo aquele empate era já uma vitória, e ao longo da semana foi sendo uma goleada cada vez maior. A estrutura do Porto tinha vergado o Manchester. A organização do Porto tinha dado cartas frente ao campeão da Europa. A gestão desportiva do Porto tinha ensinado aos ingleses como é que se goleia por 2-2. Li (e recortei) que o Porto tinha, e cito, «humilhado» o Manchester United. Eu desconhecia que, nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, uma equipa podia humilhar outra aplicando-lhe um humilhante empate. Já tinha ouvido falar em derrotas humilhantes e goleadas humilhantes. Empates humilhantes, foi a primeira vez. E, no entanto, o Porto espetou-lhes um 2-2 que eles até ficaram com as orelhas a arder. Uma semana depois, o Porto ainda conseguiu humilhar o Manchester durante 6 minutos inteirinhos, forçando os campeões do Mundo a um humilhante 0-0, mas depois um madeirense deu um pontapé no meio campo e deitou abaixo a estrutura, desfez a organização e arruinou a gestão desportiva.
Ora, se 2-2 fora é humilhar, eu esperava que, perdendo 1-0 em casa, o Porto tivesse sido trucidado. Não: bateu-se muito bem. Um jornal assinalou, e bem, que o Hulk até corre melhor que o Ronaldo. Eu vi o jogo pela televisão e fiquei chocado com a maneira atabalhoada como o Cristiano correu para a bola antes de a enfiar dentro da baliza a 40 metros de distância. Creio, aliás, que chutou dali porque teve vergonha de correr até mais perto do Helton.
Não li uma palavra sobre a estrutura do Manchester, a organização do Malcolm Glazer, a gestão desportiva da SAD do United — que, confesso, nem sei se existe. Tudo uma questão de perspectiva.
Entretanto, é justo registar, uma vez mais, a categoria da estrutura do Porto. Jesualdo Ferreira assistiu ao Porto-Manchester pela televisão, uma opção que deve ter dedo da SAD: assim, o treinador do Porto já criou rotinas que lhe permitem não estranhar as meias-finais e a final, que também vai acompanhar pela TV.
in A Bola (19/04/09)
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Governo Sombra - 17 de Abril de 2009
As coisas de que se fala (audio)
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in TSF (03/04/09)
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Sexta-feira, 17 de Abril de 2009
Boca do Inferno - 16 de Abril de 2009
Por um presidente independente e neutral que nos favoreça
Se o leitor acha que Portugal deve apoiar a recondução de Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia, pode votar PS nas próximas eleições; se, pelo contrário, acha que Portugal não deve apoiar a recondução de Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia, nesse caso, pode votar PS. José Sócrates, primeira figura do partido socialista, considera que Durão Barroso fez um bom trabalho e deve manter-se no cargo. Vital Moreira, primeiro nome na lista do PS para as eleições europeias, acha que Durão Barroso deve sair. Sócrates quer um presidente da nossa raça (para usar uma expressão cara ao Presidente da República), Vital Moreira quer um da sua cor. Certos leitores poderão perguntar: como pode um partido apresentar-se a eleições manifestando simultaneamente uma determinada intenção e a intenção rigorosamente inversa? Censuro a perfídia destes leitores. Desconhecem aquilo a que os cientistas políticos chamam um catch-all party: um partido político que, com o objectivo de captar o maior número possível de eleitores, renuncia a qualquer ideologia.
A originalidade do PS está neste pormenor engenhoso: o partido socialista não rejeita quaisquer ideologias, antes as subscreve a todas (com excepção, talvez, da socialista). O cidadão deseja que Barroso continue? Vote no PS, que tudo fará para o apoiar. Pretende ver Barroso fora da Comissão? Vote no PS, que eles também não querem lá esse bandido. Considera que Barroso deve presidir à Comissão Europeia apenas às segundas, quartas e sextas, cedendo o lugar a, digamos, uma peça de fruta às terças, quintas e sábados? Vote no PS, que há-de haver alguém lá dentro que defende essa orientação.
A bem dizer, tanto Sócrates como Vital Moreira sustentam posições compreensíveis: se Durão Barroso sair da Comissão Europeia, Sócrates sabe que, em lugar de ficar obrigado a criar 150 000l empregos, terá de arranjar 150 001, para ocupar mais um desempregado; Vital Moreira não esquece que Durão Barroso mudou do PCTP-MRPP para o PSD e, na qualidade de militante do PCP que passou para o lado do PS, não apreciará vira-casacas.
O plano de Sócrates será, talvez, o mais complexo. O primeiro-ministro quer que Portugal beneficie do facto de ter um português a ocupar um lugar que requer independência e neutralidade. No cargo em que deve esquecer-se de que é português, Durão Barroso não deve esquecer-se de que é português. Ao presidente da Comissão Europeia, que não pode olhar a nacionalidades, Sócrates pede que dê um jeitinho. Sempre com o máximo de independência e neutralidade, Durão Barroso beneficiará Portugal. É aqui que Sócrates tem razão: se há alguém que consegue levar a cabo uma tarefa destas, é mesmo um português.
in Visão (16/04/09)
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Segunda-feira, 13 de Abril de 2009
A Chama Imensa - 12 de Abril de 2008
Mas afinal o que é isto?
Depois da péssima exibição contra o Estrela da Amadora, que valeu três pontos, o Benfica fez um jogo bastante razoável contra a Académica e perdeu em casa. Eu sei que o barrote parou duas, e o árbitro, entre outras habilidades, transformou um lance que só podia ser penalty ou golo numa falta a favor da Académica, mas confesso que estou um bocadinho cansado de ver o Benfica a jogar com um número 10 a extremo-esquerdo, um extremo-esquerdo a extremo-direito, e tenho dificuldade em perceber a razão pela qual Katsouranis e Moreira estão no banco. Gosto de projectos de futuro, com alicerces sólidos, mas se o Benfica joga pior agora do que no princípio da temporada, que futuro nos espera para o ano? Dizem-me que os treinos de Quique Flores são de um profissionalismo irrepreensível, e que aqueles jogadores rendem durante a semana muito mais do que depois se vê nos jogos, e eu acredito, mas ou passamos a jogar todas as partidas no Caixa Futebol Campus ou é preciso perceber qual é a alteração, climatérica ou outra, que nos anda a corroer a qualidade do futebol praticado fora do concelho do Seixal. No fim do jogo com a Académica, Quique Flores disse que a bola não tinha entrado e que, lá está, o futebol é isto — mas a verdade é que o futebol só é isto quando se perde. Quando se ganha, não é bem isto. Ninguém ouviu Klinsmann, depois de dar 7-1 a uns desgraçados quaisquer, dizer «Fußball ist dieser». Só quando as coisas correm mal é que o futebol é isto. E eu estou tão farto disto, amigos…
Aequipa que este ano levou 4-0 do Arsenal e 4-1 do sportem foi esta semana colocada no topo do Mundo por causa de um empate. Do Benfica, que não tem jogado nada (e, contra o Estrela, jogou ainda um pouco menos), a imprensa diz que, de facto, não tem jogado nada. No entanto, à partida para a presente jornada, a equipa que está no topo do Mundo e a que não joga nada estavam separadas por 5 pontos. Um empate e uma derrota, em 23 jogos, distinguem a completa maravilha da miséria total. Agora imaginem que o Benfica jogava um bocadinho à bola — só um bocadinho. Aparentemente, bastava.
UM acaso feliz permitiu que Bayern Munique e Barcelona pudessem disputar os quartos-de-final da Liga dos Campeões e também um troféu particular: a Taça dos Clubes Que Este Ano Espetaram Cabazadas No Sporting. O Barcelona, que se apresentou nesta final a duas mãos em desvantagem (com uns modestos 8-3, em comparação com os bonitos 12-1 do Bayern), recuperou e encontra-se agora à frente através — o que é curioso — precisamente de uma cabazada. Acompanharei com interesse a segunda mão deste prestigiado troféu, que é seguido também com muito gosto, creio, em centenas de lares de sportinguistas: «Olha, os espanhóis que nos deram 8 estão a dar 4 aos alemães que nos deram 12.» O futebol, assim, dá gosto.
in A Bola (05/04/09)
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Boca do Inferno - 09 de Abril de 2009
Queres protocolinho?
A acreditar na imprensa nacional e internacional, os dirigentes do G20 passaram quase dez minutos a discutir a solução para a crise mundial e o resto do tempo a reinventar o protocolo, a quebrar o protocolo e, ocasionalmente, a seguir o protocolo.
Escreveram-se várias páginas sobre o jantar que Brown ofereceu às mulheres dos governantes. Parece que os canapés estavam formidáveis, mas as opiniões dividem-se quanto ao convite que a anfitriã fez a Naomi Campbell, a modelo que arremessa telemóveis aos empregados, e quase toda a gente reprovou que tivesse convidado a sua própria mãe, por muito que a senhora não tenha historial de arremesso de aparelhos de telecomunicação.
A indisposição da rainha com os gritos de Berlusconi, durante a fotografia de grupo oficial, também foi longamente analisada. Há quem diga que Berlusconi se comportou como um arruaceiro malcriado, outros dizem que estava apenas a ser italiano, outros ainda defendem que é quase impossível distinguir aqueles dois padrões de comportamento.
Nenhum observador deixou de registar também a troca de presentes entre a rainha e o casal Obama. O presidente dos Estados Unidos ofereceu a Isabel II um iPod contendo imagens da visita que a rainha fez à América, e a rainha ofereceu a Obama uma fotografia sua acompanhada do marido, o Duque de Edimburgo.
Sempre me fez confusão que a rainha, sendo rainha, não tivesse conseguido melhor marido do que um duque, mas guardarei essa reflexão fascinante para outra ocasião. O que me interessa notar neste momento é o facto de a generalidade dos analistas ter considerado gentil uma troca de presentes que me parece, em ambos os casos, profundamente ofensiva: Obama recordou à rainha a visita que ela fez a um território que já foi administrado pela família dela e que agora é administrado pela família dele; a rainha, mesmo sendo chefe de um país que tem, no campo da fotografia, tradições como a da página dois do jornal The Sun, oferece ao presidente americano uma foto de dois gerontes. Cada uma à sua maneira, ambas as atitudes constituem desconsiderações revoltantes.
O caso mais delicado foi, no entanto, a transgressão protocolar levada a cabo por Michelle Obama e pela rainha. Diz o protocolo que ninguém pode tocar na rainha de Inglaterra (como durante anos foi evidente, o protocolo não impõe a mesma regra à Princesa de Gales), mas a mulher de Obama abraçou-a, e a rainha, em lugar de a censurar, abraçou-a de volta. O ódio entre representantes de países diferentes pode levar o mundo à ruína, mas o afecto também cria incidentes diplomáticos graves. As relações internacionais são complicadas do ponto de vista político, mas do ponto de vista afectivo são ainda mais complexas.
Ainda no âmbito da visita de Barack Obama à Europa, uma última nota sobre o papel desempenhado por Durão Barroso, que foi nenhum. Devo confessar, no entanto, que estou preocupado com o estado de saúde de Durão Barroso. Primeiro, porque Durão Barroso está a ficar sem sobrancelhas. Não se trata de uma metáfora política, estou a ser literal: neste momento, Barroso tem apenas três ou quatro pêlos em cima de cada olho, o que é razoavelmente inquietante. Segundo, temo pelas costas do nosso antigo primeiro-ministro. Obama veio lamentar a política internacional seguida por Bush e prometeu um novo rumo. Barroso, que na cimeira dos Açores ajudou Bush a concretizar a política que Obama critica, disse agora estar maravilhado com a mudança prometida pelo novo presidente. São pinotes que devem fazer mal à coluna.
in Visão (09/04/09)
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Terça-feira, 7 de Abril de 2009
A Chama Imensa - 05 de Abril de 2008
O silêncio dos inocentes é ensurdecedor
Uma semana depois de Avelino Ferreira Torres ter sido ilibado de todos os crimes de que era acusado, Pinto da Costa foi também considerado inocente pelo douto tribunal de Gaia. «Les beaux esprits se rencontrent», como dizem os franceses, mas eu não falo francês e nunca percebi o que é que eles queriam dizer com aquilo. No caso do presidente do Porto, condenado em definitivo no âmbito da justiça desportiva, o tribunal considerou que não é problemático que os árbitros visitem a casa de dirigentes desportivos na véspera de arbitrarem jogos dos seus clubes, que o árbitro em questão tinha beneficiado o Porto apenas moderadamente e que as testemunhas de acusação não tinham credibilidade (nem as que acusavam Pinto da Costa de corromper pessoas nem as que o acusavam de lhes ter pago para dizerem que não corrompia pessoas). Enfim, nada que quem lê jornais há já uns anos não estivesse à espera. A célebre factura da viagem ao Brasil, compreendo-o agora, também tinha trabalhado numa casa de alterne.
Como toda a gente, suponho, estranho o silêncio que a comunicação social portuguesa tem dedicado à carreira de Mick Phelan. Durante anos, nenhum dos nossos jornais se esqueceu de assinalar que os êxitos do Manchester United eram também (senão sobretudo) do prof. Carlos Queirós. O prof. Carlos Queirós tinha revolucionado o Manchester United. O prof. Carlos Queirós tinha levado para Manchester métodos que tinham deixado boquiaberta toda a Bretanha — que é grã. O prof. Carlos Queirós era indispensável no Manchester United e Alex Ferguson nem queria ouvir falar na sua saída. Havia uma razão para isto: Alex Ferguson só fazia as substituições, todo o trabalho importante era feito pelo prof. Carlos Queirós. O prof. Carlos Queirós não era o treinador-adjunto de Alex Ferguson, Alex Ferguson é que tinha a honra e a sorte de ser o treinador principal da equipa técnica onde pontificava o prof. Carlos Queirós. O prof. Carlos Queirós inventou jogadores, ganhou taças, foi campeão de Inglaterra e da Europa. Nisto, o prof. Carlos Queirós veio treinar a selecção portuguesa e deixou o Manchester condenado à ruína. Alex Ferguson, imprudentemente, substituiu o indispensável prof. Carlos Queirós por Mick Phelan. Exacto, Mick Phelan. O antigo treinador-adjunto do Norwich, do Blackpool e do Stockport County. E, embora os jornais portugueses o tenham ignorado, Mick Phelan já foi campeão do Mundo de clubes, lidera o campeonato inglês, e está nos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Para quando a atenção devida ao trabalho de Mick Phelan? Tenho saudades de acompanhar a carreira de treinadores-adjuntos brilhantes.
in A Bola (05/04/09)
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Governo Sombra - 03 de Abril de 2009
Arguidos, brancos de olhos azuis e colunas de opinião (audio)
Arguidos, brancos de olhos azuis e colunas de opinião (vídeo)
in TSF (03/04/09)
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Boca do Inferno - 02 de Abril de 2009
Vaia é para quem um jornalista quiser
A fazer fé nos jornais, Fernanda Câncio foi vaiada por afinidade
De todas as classes profissionais, nenhuma terá tanta razão de queixa dos jornalistas como os próprios jornalistas. Os jornalistas podem desconfiar dos políticos, desprezar os empresários, maldizer os artistas - mas quem eles detestam mesmo são os outros jornalistas. É uma atitude que, sendo em geral sensata e justificada (tenho vindo a abominar gradualmente o conceito de jornalista e o ser mais ou menos humano que, pontualmente, o corporiza), resvala com frequência para o traconismo (sim, sim: o traconismo). É uma espécie de corporativismo invertido.
Esta semana, Sócrates foi à ópera e o público vaiou-o. E o primeiro-ministro nem sequer cantou. Mas, como se apresentou com a namorada, os jornais optaram, quase todos, pelo título: "Sócrates e Fernanda Câncio vaiados no CCB". Só um observador particularmente subtil é capaz de compreender que, quando um grupo de cidadãos vaia o primeiro-ministro, está também a apupar quem o acompanha.
Um jornalista menos hábil na hermenêutica das vaias não teria percebido que, naquele momento, os apupos se dirigiam, aparentemente em partes iguais, a José Sócrates e à namorada. No entanto, a fazer fé nos jornais, Fernanda Câncio foi vaiada por afinidade.
Eu estudei (o mais desinteressadamente possível, é certo) comunicação social. Mas, por falta de atenção ou talento, não saí da universidade preparado para interpretar uma vaia com este rigor. Duvido que, se Sócrates tivesse convidado o Dalai Lama para assistir à ópera, os jornais tivessem relatado que Sócrates e o Dalai Lama haviam sido vaiados no CCB. Se Manuela Ferreira Leite fosse primeira-ministra e o público a vaiasse numa cerimónia pública, não sei se a comunicação social diria que Ferreira Leite e o marido tinham sido vaiados. Uma hipótese provável - sobretudo para quem conhece Fernanda Câncio -, era que o público estivesse a vaiar o primeiro-ministro e a assobiar a Fernanda Câncio. Mas, neste caso, o ouvido dos jornalistas soube detectar que o que se ouvia eram apupos, e dirigiam-se tanto a Sócrates como à namorada.
Fernanda Câncio não está, evidentemente, isenta de culpas. Se, mal entrou no CCB, tivesse vaiado também o primeiro-ministro, os títulos poderiam ter sido diferentes. O casal seria vaiado na mesma, mas os jornais teriam sido forçados a registar que, apesar de tudo, Sócrates tinha sido mais vaiado do que Fernanda Câncio.
Por fim, o público presente na sala também não sai bem deste episódio. Sócrates chegou atrasado à ópera porque ficou à espera do primeiro-ministro de Cabo Verde. Com tantos e tão bons motivos para apupar o chefe do Governo, vaiar José Sócrates por ter aguardado pelo seu homólogo cabo-verdiano é como assobiar Carlos Queirós por não fazer a barba.
in Visão (02/04/09)
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Segunda-feira, 30 de Março de 2009
A Chama Imensa - 29 de Março de 2008
Pato com fruta à António Tavares-Teles
QUANDO o, digamos, jornalista António Tavares-Teles foi apanhado numa das mais edificantes escutas do processo Apito Dourado, temi pelo futuro profissional do, digamos, jornalista António Tavares-Teles. Depois, li que o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas concluiu que o, digamos, jornalista Tavares-Teles tinha infringido «objectivamente o n.º 1 do Código Deontológico (…) que obriga a relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade», e ofendera a deontologia profissional — e cheguei a pensar que o, digamos, jornalista Tavares-Teles não voltaria a escrever nos jornais. Só depois me lembrei de um facto importante: vivemos em Portugal, e aqui tudo é possível.
O caso explica-se depressa: o, digamos, jornalista Tavares-Teles escrevia uma coluna chamada O Pato no jornal O Jogo. Certo dia, o bem informado Pato sugeriu que Deco abandonaria a Selecção se fosse injustamente castigado pelo acto corriqueiro e inofensivo de ter atirado uma bota a um árbitro. A escuta da conversa telefónica entre o, digamos, jornalista Tavares-Teles e Pinto da Costa era precisamente sobre esse texto. Cito o jornal Correio da Manhã de 24 de Julho de 2007: «Pelo que se pode ler da transcrição da referida escuta telefónica percebe-se (…) que, além de ter sido combinado, o teor do texto era falso, já que, conforme assumiu Pinto da Costa noutra conversa telefónica, servia apenas como forma de pressão e de chantagem para com os elementos do Conselho Disciplinar da Liga de Clubes». Cito agora alguns dos momentos mais notáveis da escuta:
Tavares-Teles: (…): Olha pá, eu já escrevi aquela história do Deco (…). O Manuel Tavares [director de O Jogo] estava a querer pôr aquilo em grande destaque, pá!
Pinto da Costa: Não, não! Tem mais impacto aí.
Como se não fosse suficientemente habilitado como dirigente, o presidente do Porto ainda revela talento para o jornalismo, e é capaz de definir o lugar em que os textos devem sair para terem mais impacto. A escuta prossegue com a legítima preocupação do, digamos, jornalista Tavares-Teles: quando Deco fosse confrontado com uma intenção que nunca manifestara, como reagiria? Vale a pena ler o diálogo entre dois grandes senhores da comunicação social:
Tavares-Teles: O gajo não é maluco o suficiente para dizer que não, que não é nada, que é tudo mentira?
Pinto da Costa: Não! Eu falo com o Antero e ele avisa!
É interessante referir a escolha vocabular do, digamos, jornalista Tavares-Teles, para quem aquele que opta por dizer a verdade é, e cito, um «maluco».
Quando a escuta foi publicada o, digamos, jornalista Tavares-Teles esbracejou, ameaçou processar o mundo inteiro, e depois não processou ninguém e foi esbracejar para casa. Foi o melhor que fez: livrou-se de mais vergonhas e continua a escrever nos jornais — o que constitui, creio eu, um excelente negócio para os jornais: os textos de opinião são caros, mas os ditados não devem ser especialmente dispendiosos.
Ontem, o professor Carlos Queiroz talvez tenha pretendido surpreender os suecos, mas julgo que acabou por embasbacar os portugueses. Nenhum indígena estaria à espera que o lateral-esquerdo fosse um extremo, que o trinco e o lateral-direito fossem centrais, e que o ponta-de-lança fosse um médio ofensivo. Os bons treinadores surpreendem o adversário; os excelentes surpreendem a própria equipa.
Sobre o jogo, há que dizer duas coisas. Primeiro, foi um excelente resultado: da última vez que jogámos contra onze jogadores vestidos de azul e amarelo levámos seis. Aqui está um progresso que se saúda. Segundo, a arbitragem foi isenta, o que constitui um escândalo: é raríssimo haver um jogo no Dragão em que a equipa da casa não é beneficiada. É lamentável que a FIFA não respeite tradições ancestrais.
De resto, tudo correu bem. Durante a partida, os comentadores da TVI exibiram aquele chauvinismo a que os jornalistas estão obrigados durante os jogos da Selecção. Destaco a observação segundo a qual os suecos se tinham apresentado com uma formação demasiado defensiva. Enfim, nem todos os treinadores podem ter o arrojo do professor Queiroz, que passou a maior parte do jogo com quatro centrais em campo.
Ontem, Filipe Soares Franco afirmou que «o Benfica não pode continuar a agredir o presidente do Sporting», na medida em que isso deteriora as relações entre os clubes. Concordo apenas em parte: pode minar as relações agora, mas melhora-as a longo prazo. Recordo que, em Outubro de 2003, Soares Franco fez insinuações desagradáveis relativamente à relação de Pinto da Costa com os árbitros e disse que «o Papa estava a morrer». Pinto da Costa respondeu que Franco era indigno e prometeu que nunca mais o cumprimentaria. Hoje, são unha com carne. Está visto que, dentro de seis anos, Benfica e sportem serão grandes amigos.
in A Bola (22/03/09)
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Sexta-feira, 27 de Março de 2009
Governo Sombra - 27 de Março de 2009
É favor accionar o sistema (audio)
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in TSF (27/03/09)
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Quinta-feira, 26 de Março de 2009
Boca do Inferno - 26 de Março de 2009
Uma reflexão acerca de lixo
É muito frequente encontrar-me na circunstância de ter lixo na mão e, quando confrontado com os rótulos que hoje designam as várias secções dos caixotes do lixo (cartão, papel, embalagens, vidro), verificar que o lixo que eu possuo se enquadra, invariavelmente, na categoria dos indiferenciados.
Certo dia, quando trabalhava no JL, fui incumbido de entrevistar uma escritora chamada Adília Lopes. A primeira pergunta que lhe fiz foi sobre um poema seu de que eu gostava e gosto muitíssimo. Chama-se Autobiografia sumária e só tem três versos: "Os meus gatos / gostam de brincar / com as minhas baratas." O meu objectivo era impressionar a autora com a minha excelente interpretação do poema. Disse-lhe que aqueles versos eram também o resumo da minha vida. Os meus gatos, isto é, aquilo que em mim é felino, arguto, crítico ("Não é por acaso", disse eu, "que Fialho de Almeida reuniu os seus textos críticos num volume chamado Os Gatos"), aquilo que em mim é perspicaz - e até cruel - gosta de brincar com as minhas baratas, ou seja, com aquilo que em mim é repugnante, negro, rasteiro, vil. E aquela operação poética - que é, igualmente, uma operação humorística - de escarnecer de si próprio era-me tão familiar que podia descrever-me de forma tão competente como à autora do poema.
Os olhos de Adília Lopes humedeceram-se. Fosse qual fosse a noite solitária em que escreveu o poema, estava longe de imaginar que, tanto tempo depois, a sua alma gémea se apresentasse à sua frente, compreendendo-a tão profundamente. Foi então que Adília Lopes falou. Disse o seguinte: "Pois. Bom, comigo, o que se passa é que eu tenho gatos. E tenho também baratas, na cozinha. E os gatos gostam de ir lá brincar com elas." E depois exemplificou, com as mãos, o gesto que os gatos faziam com as patinhas.
Foi naquele dia, amigo leitor, que eu deixei de me armar em esperto. Tinha citado Fialho de Almeida, tinha usado a expressão "operação poética", e tinha-me visto a mim onde só havia gatos e baratas. Os olhos de Adília Lopes estavam húmidos, provavelmente, do esforço que a sua proprietária fazia para não rir. Não eram só os sacanas dos gatos que escarneciam de mim: a Adília Lopes também. E, desde esse dia, tenho constatado que o mundo inteiro, em geral, me mofa (quem aprecia a frase bem torneada fará bem em registar, num caderninho próprio, a elegante construção "me mofa").
Vários filósofos têm reflectido sobre o lixo, sobretudo acerca do modo como a nossa sociedade trata o seu lixo. Eu estou magoado com o modo como a nossa sociedade trata o meu lixo em especial. Não me interessa o tratamento que a sociedade dá ao seu lixo: a forma como trata o meu é humilhante. O lixo de Adília Lopes gera vida e poemas. O meu lixo não só não gera nada como tem uma falta de personalidade que o amesquinha quase tanto quanto me amesquinha a mim. É muito frequente encontrar-me na circunstância de ter lixo na mão e, quando confrontado com os rótulos que hoje designam as várias secções dos caixotes do lixo (cartão, papel, embalagens, vidro), verificar que o lixo que eu possuo se enquadra, invariavelmente, na categoria dos indiferenciados. Quase todo o meu lixo se caracteriza por uma falta de carácter que só posso ser eu a transmitir--lhe. Eis, afinal, a minha autobiografia sumária: "O meu lixo / é tão desinteressante / como eu."
in Visão (26/03/09)
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Domingo, 22 de Março de 2009
A Chama Imensa - 22 de Março de 2008
Quero acabar entre papoilas
O tema talvez lhe interesse pouco, amigo leitor, e a minha opinião sobre ele ainda menos, mas eu estou convencido de que, dos 5 maiores poetas portugueses de sempre, dois ou três são o Fernando Pessoa. Um desses, chamado Álvaro de Campos, escreveu o seguinte: «Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância». Eu, na infância, amei papoilas.
Percebi que era uma pessoa doente quando Artur Semedo morreu. Vi as imagens do enterro na televisão, o caixão coberto por uma magnífica bandeira vermelha, com a águia e a roda da bicicleta rigorosamente no centro. Lembro-me de ter pensado: «Quem me dera ser eu dentro daquele caixão.» É no momento em que dá por si a invejar um morto que uma pessoa compreende que sofre de uma maleita grave.
Ontem o Benfica ganhou mais um troféu e, se é verdade que Polga e João Moutinho deviam ter sido expulsos a meio da segunda parte, não é menos verdade, que o penalty que nos dá o empate não existe. Os benfiquistas não se alegram com as vitórias obtidas na sequência de golos ilegais. Felizmente, são muito raras. Compreendo, por isso, a indignação de Paulo Bento. Teria sido muito fácil para Lucílio Baptista ver que o penalty era inexistente. Bastava que estivesse na posição em que o Vukcevic se encontrava quando marcou o golo ao Rio Ave. Dali, via-se perfeitamente. Além disso, Paulo Bento tem razão quando diz que o Sporting tinha o jogo controlado. O modo como Tiago controlou com os olhos aquele cabeceamento do Miguel Vítor à barra tornou claro que o Benfica não tinha qualquer hipótese de chegar ao golo.
E, acima de tudo, compreendo a revolta de Filipe Soares Franco. Um homem que, quando o Sporting joga com o Porto se senta ao lado daquele dirigente que está suspenso por dois anos por tentativa de corrupção, só pode ser apreciador de jogo limpo. É especialmente irónico que isto aconteça logo a ele.
«Rosebud» é a última palavra que, no início de Citizen Kane, a personagem de Orson Welles profere antes de morrer. No final, o espectador verifica que Rosebud era a marca de um trenó que o milionário amara na infância. Eu tenho um palpite sobre a última palavra que direi antes de morrer. Quem estiver ao meu lado (se estiver alguém) talvez perceba mal o que direi e pense que me estou a despedir — o que não corresponde à verdade. É possível que, devido à minha condição de moribundo velho e desdentado, a dicção esteja ligeiramente afectada, e isso faça com que a minha última palavra se pareça com «Tchau». Por isso, deixem-me aproveitar agora para esclarecer que, muito provavelmente, a palavra que eu estarei a dizer é «Shéu». Eu quero acabar entre papoilas.
in A Bola (22/03/09)
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